Prevenção pode evitar 739 mil mortes no Brasil até 2050, diz estudo da McKinsey

Um novo levantamento do McKinsey Health Institute (MHI) colocou o Brasil no centro de um debate importante sobre o futuro da saúde pública: o país poderia evitar cerca de 739 mil mortes prematuras até 2050 se investisse de forma mais estratégica em prevenção, em vez de concentrar recursos apenas no tratamento de doenças já instaladas. O estudo, batizado de “A saúde das nações” (“The Health of Nations”, no original), foi divulgado nos primeiros dias de outubro e já repercute entre gestores de saúde, pesquisadores e veículos especializados no Brasil.

A pesquisa não é um relatório genérico sobre bem-estar. Ela analisa 300 intervenções de saúde diferentes, aplicadas a 90 doenças e 27 fatores de risco, cruzando dados de expectativa de vida, anos vividos com boa saúde e custo econômico de cada abordagem. A conclusão central é direta: de todo o ganho potencial de saúde que o Brasil poderia obter nas próximas décadas, 59% viria de ações de prevenção, e não de tratamentos mais caros ou tecnologias médicas de ponta.

O que o estudo considera “prevenção”

Quando o McKinsey Health Institute fala em prevenção, o conceito é mais amplo do que check-up anual ou vacina. O levantamento inclui decisões de política pública, como controle de tabagismo e consumo de álcool, incentivo à atividade física regular, alimentação mais equilibrada, saneamento básico, controle de poluição do ar e políticas de segurança no trânsito. São fatores que, somados, respondem por uma parcela enorme da carga de doenças crônicas que hoje pressiona o sistema de saúde brasileiro, tanto público quanto privado.

Isso significa, na prática, que decisões tomadas fora do consultório médico (em políticas urbanas, programas escolares, incentivos fiscais e campanhas de conscientização) têm peso comparável, ou até maior, do que o acesso a remédios e exames para determinar quanto tempo de vida saudável uma população vai ter.

Médico em consultório revisando prontuário de paciente
Prevenção, segundo o estudo, pesa mais que tratamento na expectativa de vida saudável da população. Foto: Nenad Stojković (CC BY 2.0)

Ganho de até 5 anos na expectativa de vida

Um dos números que mais chamou atenção no estudo é a estimativa de que, com a adoção combinada dessas intervenções, o brasileiro poderia ganhar até cinco anos adicionais de expectativa de vida, levando a média nacional a se aproximar dos 85 anos em um horizonte de décadas. Hoje, a expectativa de vida no Brasil gira em torno de 76 anos, segundo dados oficiais do IBGE, o que mostra o tamanho do potencial de melhoria identificado pela pesquisa.

O relatório também traduz esse ganho de saúde em termos econômicos: a adoção mais ampla das intervenções preventivas mapeadas poderia adicionar mais de R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro ao longo do período analisado. A lógica é a de que população mais saudável trabalha mais anos, falta menos ao trabalho por doença e consome menos recursos do sistema de saúde com internações e tratamentos de alto custo, o que libera orçamento público e privado para outras prioridades.

A fala de um dos autores do estudo

Brad Herbig, um dos pesquisadores ligados ao levantamento do McKinsey Health Institute, resumiu a mensagem central do estudo ao comentar os resultados: a ideia não é que tratamento deixe de ser necessário, mas que os países, incluindo o Brasil, estão investindo pesado demais em “remediar” doenças já instaladas e pouco em evitar que elas apareçam. Para ele, o desequilíbrio entre gasto em tratamento e gasto em prevenção é um dos principais motivos pelos quais o ganho de expectativa de vida saudável tem sido mais lento do que poderia, mesmo em países que aumentaram consideravelmente seus investimentos em saúde nas últimas décadas.

Como a notícia chegou ao Brasil

A cobertura nacional do estudo partiu de reportagem da jornalista Tâmara Freire, da Agência Brasil, publicada no início de outubro, e foi replicada por veículos regionais como Acessa.com e A Crítica, além de ganhar destaque em portais como o O Povo. A repercussão rápida tem a ver com o momento: o Brasil discute, ao mesmo tempo, o futuro do financiamento do SUS, o envelhecimento da população e o aumento de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e obesidade, três temas diretamente relacionados ao escopo do levantamento do McKinsey Health Institute.

Vale um ponto de atenção sobre os números: parte da cobertura internacional do estudo cita um percentual de 65% de “carga evitável de doenças” em escala global, uma média entre os países analisados pela pesquisa. Já o número de 59% citado neste texto é a estimativa específica calculada para o Brasil, que pode variar de país para país dependendo do perfil epidemiológico e da estrutura de saúde de cada um. É importante não confundir o dado global com o dado nacional ao repassar essa informação.

Profissional de saúde verificando temperatura de paciente com termômetro digital
Ações simples de acompanhamento regular de saúde fazem parte do conjunto de intervenções preventivas mapeadas pelo estudo. Foto: Nenad Stojković (CC BY 2.0)

O que isso significa no dia a dia de quem lê esta matéria

O Portal Saúde Ativa não tem como função substituir orientação médica, e este texto não deve ser lido como recomendação de tratamento, diagnóstico ou prescrição de qualquer tipo. Mas o estudo do McKinsey Health Institute reforça, com dados em grande escala, algo que a literatura de saúde pública já vinha apontando há anos: hábitos simples, mantidos de forma consistente, pesam mais do que parece no resultado final de saúde de uma pessoa ao longo da vida.

Entre os fatores de risco citados no estudo que têm maior peso individual estão o tabagismo, o consumo excessivo de álcool, o sedentarismo e a alimentação rica em ultraprocessados, exatamente os pontos que campanhas de saúde pública no Brasil já tentam combater há décadas, com resultados parciais. A diferença, segundo o levantamento, é que o combate a esses fatores precisa ser tratado como prioridade estrutural, e não como campanha pontual de conscientização.

Resumo dos principais números do estudo

  • Instituição responsável: McKinsey Health Institute (MHI)
  • Nome do estudo: “A saúde das nações” (“The Health of Nations”)
  • Mortes prematuras evitáveis no Brasil até 2050: cerca de 739 mil
  • Participação da prevenção no ganho potencial de saúde no Brasil: 59%
  • Intervenções mapeadas: 300, cobrindo 90 doenças e 27 fatores de risco
  • Ganho potencial de expectativa de vida: até 5 anos, aproximando a média nacional dos 85 anos
  • Impacto econômico estimado: mais de R$ 1 trilhão adicionados ao PIB brasileiro

Fontes: McKinsey Health Institute (“The Health of Nations”), reportagem de Tâmara Freire para a Agência Brasil, com repercussão em Acessa.com, A Crítica e O Povo.