Um estudo publicado no periódico científico PLOS Medicine em 17 de setembro de 2026 reforça algo que a medicina do sono já vinha sugerindo há anos: a qualidade do sono, não só a quantidade de horas, tem relação direta com o risco de dezenas de condições de saúde ao longo da vida. A pesquisa, conduzida por uma equipe liderada por Shengzhi Sun, da Capital Medical University, associou mais tempo de sono REM a um risco menor em 83 condições diferentes.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores analisaram dados de 95.559 participantes do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados biomédicos do mundo, usado como base para milhares de estudos científicos internacionais. Cada participante usou um acelerômetro de pulso — um dispositivo semelhante a um relógio inteligente, que registra movimento — por sete dias e sete noites consecutivas.
A partir desses dados de movimento, um algoritmo de aprendizado de máquina (inteligência artificial treinada para reconhecer padrões) calculou os estágios do sono de cada pessoa: quanto tempo ficou em sono REM, sono profundo e sono leve, além da duração total do sono, quantas vezes a pessoa acordou depois de pegar no sono, e o quanto esses padrões variavam de uma noite para outra.
Depois de coletar esses dados de sono, os pesquisadores acompanharam a saúde dos participantes por um período com mediana de 8,9 anos, cruzando os padrões de sono registrados no início do estudo com o histórico de diagnósticos médicos ao longo do tempo.
O que os números mostram
Entre as 83 condições associadas a mais sono REM, três resultados chamaram atenção dos pesquisadores pela magnitude do efeito estatístico:
- Insuficiência cardíaca: razão de risco de 0,74 — ou seja, associação com risco 26% menor entre quem teve mais sono REM;
- Demência: razão de risco de 0,54, associação com risco 46% menor;
- Doença de Parkinson: razão de risco de 0,20, a associação mais forte encontrada no estudo.
Cada intervalo interquartil adicional de sono REM (equivalente a cerca de 47,6 minutos a mais de sono REM por noite, na distribuição da amostra estudada) esteve associado a essa redução de risco nas condições citadas.
Curiosamente, o sono profundo (fase diferente do REM) teve associação própria com um grupo menor de sete condições, incluindo diabetes tipo 2 e transtorno depressivo maior — o que sugere que fases diferentes do sono podem ter papéis distintos na proteção contra doenças específicas.
Já em relação à duração total do sono, os participantes que dormiam entre 6 e 8 horas por noite apresentaram, de forma geral, o menor risco combinado entre todas as condições analisadas — nem menos, nem muito mais que essa faixa.
O que é o sono REM, afinal
REM é a sigla em inglês para “rapid eye movement” (movimento rápido dos olhos), a fase do sono em que ocorre a maior parte dos sonhos e em que o cérebro apresenta atividade elétrica parecida com a do estado desperto, mesmo com o corpo em repouso profundo. É considerada uma fase importante para consolidação de memória, regulação emocional e uma série de processos de manutenção do sistema nervoso — o que ajuda a explicar por que déficits nessa fase específica do sono aparecem associados a condições neurológicas como demência e Parkinson.
Ao longo de uma noite de sono, o corpo alterna entre sono leve, sono profundo e sono REM em ciclos que se repetem várias vezes — e a proporção de cada fase muda naturalmente com a idade, o que é um dos motivos pelos quais pesquisas como essa controlam estatisticamente fatores como idade, sexo e outras condições de saúde preexistentes antes de calcular as associações.
O que isso significa na prática
É importante entender os limites desse tipo de estudo: trata-se de uma pesquisa observacional, que identifica associação, não necessariamente uma relação direta de causa e efeito comprovada. Ou seja, o estudo não prova que dormir mais REM “causa” menos demência — ele mostra que, na população estudada, as duas coisas andaram juntas com consistência estatística relevante, mesmo depois de ajustar outros fatores.
Dito isso, o achado se soma a um corpo crescente de evidência científica que trata o sono de qualidade como um dos pilares de prevenção em saúde — ao lado de alimentação equilibrada e atividade física regular — e não apenas como descanso.
Na prática, especialistas em medicina do sono costumam recomendar hábitos que favorecem um sono mais completo e com boas proporções de cada fase, entre eles: manter horários regulares para dormir e acordar (inclusive nos fins de semana), evitar telas com luz azul pouco antes de dormir, moderar o consumo de cafeína e álcool à noite, e manter o quarto escuro, silencioso e em temperatura agradável.
Quem sofre de insônia persistente, apneia do sono ou outras alterações que afetam a arquitetura do sono deve procurar avaliação médica especializada — esse tipo de diagnóstico e tratamento não pode ser feito por conta própria com base em estudos populacionais como este, que servem para orientar políticas de saúde pública e pesquisa, não para substituir avaliação individual.

Por que o UK Biobank é uma base confiável
O UK Biobank é um banco de dados biomédico de larga escala mantido no Reino Unido, com informações de saúde de mais de 500 mil voluntários recrutados a partir de 2006. Participantes concordam em fornecer amostras biológicas, responder questionários detalhados e ter seu histórico de saúde acompanhado ao longo de décadas, o que permite esse tipo de estudo de longo prazo cruzando um hábito (nesse caso, padrões de sono) com desfechos de saúde reais, anos depois.
Por ser um recurso aberto a pesquisadores de qualquer país mediante aprovação ética, o UK Biobank é usado como base para milhares de publicações científicas todos os anos, cobrindo desde genética até epidemiologia comportamental — como é o caso deste estudo sobre sono. A escala da amostra (quase 96 mil pessoas neste caso específico) é um dos pontos fortes do trabalho, já que aumenta a confiança estatística nas associações encontradas, mesmo sendo elas de natureza observacional.
Perguntas frequentes
O que é sono REM? É a fase do sono associada aos sonhos mais vívidos, em que o cérebro tem atividade elétrica parecida com a do estado acordado. A sigla vem do inglês “rapid eye movement”.
Dormir mais tempo garante mais sono REM? Não necessariamente — o estudo aponta que a faixa de 6 a 8 horas totais de sono teve o menor risco combinado, sugerindo que qualidade e distribuição das fases importam tanto quanto a quantidade total de horas.
Esse estudo prova que dormir mal causa demência? Não. É um estudo observacional, que mostra associação estatística, não uma relação de causa e efeito comprovada experimentalmente.
Como posso saber se durmo pouco REM? Sem exame especializado (como polissonografia), não é possível medir com precisão a proporção de cada fase do sono em casa. Dispositivos vestíveis de consumo dão estimativas, mas não substituem avaliação clínica.
Existe forma de “treinar” mais sono REM? Não há um método comprovado de aumentar deliberadamente a proporção de sono REM por conta própria. O que a ciência do sono recomenda é focar nos hábitos que favorecem um sono completo e ininterrupto — já que interrupções frequentes tendem a reduzir o tempo total passado em fases mais profundas do ciclo, incluindo o REM, que costuma se concentrar mais na segunda metade da noite.
Fonte: ScienceDaily / PLOS Medicine, “More REM sleep linked to lower risk of 83 diseases”, 23/09/2026, com base em estudo de Shengzhi Sun et al. (Capital Medical University) usando dados do UK Biobank. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.