
Projeção indica o segundo maior número de casos já registrado
O Brasil deve fechar 2026 com aproximadamente 1,8 milhão de casos de dengue, segundo projeções construídas a partir do modelo InfoDengue-Mosqlimate, iniciativa que reúne dados de vigilância epidemiológica de municípios brasileiros. O número, embora bem menor do que o recorde histórico de mais de 6,5 milhões de casos registrados em 2024, ainda representaria o segundo maior patamar da doença desde que a série de monitoramento começou a ser consolidada de forma sistemática no país.
A doença, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, segue sendo um dos principais desafios de saúde pública do Brasil, especialmente em anos de temperaturas mais altas e chuvas irregulares, condições que favorecem a proliferação do vetor. As regiões Sudeste e Centro-Oeste concentram historicamente boa parte das notificações, mas o padrão de circulação do vírus tem se mostrado cada vez mais imprevisível, com surtos surgindo também em municípios que antes registravam poucos casos.
Especialistas em vigilância epidemiológica alertam que a redução em relação a 2024 não deve ser interpretada como sinal de controle definitivo da doença. A dengue tem comportamento cíclico, e anos de queda costumam ser seguidos por novos picos quando a proporção da população ainda sem contato com determinado sorotipo do vírus volta a crescer.
Vacina Butantan-DV tem aplicação suspensa temporariamente
Em meio a esse cenário, o Ministério da Saúde anunciou, em 8 de junho, a descontinuação temporária da estratégia de vacinação com a Butantan-DV, imunizante de dose única contra a dengue desenvolvido pelo Instituto Butantan. A decisão foi tomada em conjunto com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como medida de precaução, após o registro de eventos adversos graves entre pessoas vacinadas.
Até o final de maio, mais de 500 mil doses da Butantan-DV haviam sido aplicadas em um projeto-piloto realizado em quatro municípios — Botucatu (SP), Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e Araguaína (TO) —, voltado a pessoas entre 15 e 59 anos. Do total de vacinados, 3.703 pessoas (cerca de 0,7%) relataram sintomas semelhantes aos da dengue após a aplicação, e 42 casos (0,008%) apresentaram sinais de alerta, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Três pessoas precisaram de internação, e duas delas morreram: uma mulher de 48 anos, que evoluiu para meningoencefalite 19 dias após receber a dose, e um homem de 58 anos, que teve progressão rápida para dengue grave com choque refratário. Uma terceira paciente, de 39 anos, foi internada em UTI e se recuperou.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a descontinuação “tem um objetivo que é a ação de precaução”, enquanto a Anvisa monta um painel de especialistas para investigar a associação entre os eventos e a vacina. Os casos são considerados raros pelas autoridades, já que não haviam sido previstos nos estudos clínicos que avaliaram cerca de 16 mil voluntários antes da aprovação do imunizante, concedida pela Anvisa em novembro de 2025.
É importante destacar que a suspensão afeta apenas a Butantan-DV. A Qdenga, vacina de dose dupla produzida pela farmacêutica Takeda, continua sendo aplicada normalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é a principal estratégia de imunização contra a dengue no país neste momento — o Ministério da Saúde já havia contratado 9 milhões de doses da Qdenga para 2026.
O que fazer enquanto o cenário se resolve
Enquanto a investigação sobre a Butantan-DV segue em andamento, as autoridades de saúde reforçam que a principal ferramenta de proteção contra a dengue continua sendo o controle do mosquito transmissor. Eliminar água parada em pneus, vasos de plantas, calhas e recipientes ao redor de casa, manter caixas d’água e reservatórios bem tampados e usar repelente em horários de maior exposição são medidas que seguem recomendadas por todos os órgãos de vigilância, independentemente do avanço da vacinação.
Quem já recebeu a Butantan-DV não precisa entrar em pânico: os episódios graves identificados até agora são raros, e o Ministério da Saúde orienta que qualquer sintoma como febre alta, dor abdominal intensa, vômitos persistentes ou sangramentos, mesmo semanas após a vacinação, seja avaliado por um profissional de saúde o quanto antes. A recomendação vale, na verdade, para qualquer pessoa com sintomas compatíveis com dengue, vacinada ou não, já que o diagnóstico precoce é o que reduz o risco de complicações graves da doença.
Novas diretrizes sobre o futuro da vacinação com a Butantan-DV devem ser anunciadas pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa somente depois que a investigação epidemiológica reunir conclusões técnicas suficientes. Até lá, o monitoramento da doença no país segue sendo feito com base nos dados de notificação estadual e municipal, que sustentam a projeção de 1,8 milhão de casos para o fechamento de 2026.