
O que mostra o novo relatório GLASS da OMS
Um novo levantamento divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em outubro de 2025, o relatório GLASS (sigla em inglês para Sistema Global de Vigilância de Resistência Antimicrobiana), revela que uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo já não responde mais aos antibióticos disponíveis. O documento analisou dados coletados entre 2018 e 2023 em dezenas de países e identificou um crescimento superior a 40% nos níveis de resistência entre os medicamentos monitorados nesse período.
O estudo acompanhou 22 antibióticos usados contra oito tipos de bactérias que respondem por boa parte das infecções mais comuns em hospitais e na comunidade, entre elas Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae, Neisseria gonorrhoeae (causadora da gonorreia), além de espécies de Salmonella, Shigella e Acinetobacter. As infecções avaliadas incluem quadros urinários, gastrointestinais, respiratórios, de corrente sanguínea e sexualmente transmissíveis — ou seja, boa parte das razões mais comuns pelas quais um antibiótico é prescrito no dia a dia.
Por que a resistência a antibióticos preocupa tanto os especialistas
Segundo a OMS, a resistência antimicrobiana bacteriana já está associada a mais de 1,27 milhão de mortes por ano em todo o mundo. Se a tendência atual de crescimento não for revertida, a projeção é de que esse número chegue a 10 milhões de óbitos anuais até 2050 — um patamar que superaria o câncer como principal causa de morte no planeta, segundo estimativas citadas pela própria organização e por agências da ONU.
A resistência antimicrobiana está entre as dez principais ameaças à saúde global listadas pela OMS, ao lado de temas como mudanças climáticas e doenças não transmissíveis. O mecanismo do problema é conhecido: quanto mais uma bactéria é exposta a um antibiótico, maior a chance de que sobrevivam variantes capazes de resistir àquele medicamento, que se multiplicam e se tornam predominantes. Uso inadequado, doses incorretas, tratamentos interrompidos antes do tempo recomendado e o uso excessivo de antibióticos na criação de animais são apontados como os principais aceleradores desse processo.
Na prática, isso significa que infecções antes consideradas simples de tratar — como uma infecção urinária ou uma pneumonia bacteriana — podem passar a exigir internações mais longas, medicamentos de segunda ou terceira linha, mais caros e com mais efeitos colaterais, ou, em casos extremos, ficar sem nenhuma opção eficaz de tratamento. É o cenário que especialistas em saúde pública já chamam de “pandemia silenciosa”: diferente de uma epidemia com um vírus único e visível, a resistência antimicrobiana avança de forma dispersa, em hospitais e comunidades de todo o mundo, sem um marco claro de início.
O papel do Brasil e da automedicação nesse cenário
O Brasil aparece no radar da resistência antimicrobiana por um motivo bastante concreto: o hábito de tomar antibiótico sem orientação médica. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), divulgado no fim de 2024, mostrou que um terço dos brasileiros consome antibióticos sem prescrição — parte considerável dessas compras irregulares (27%) acontece em farmácias de bairro, fora da fiscalização que deveria exigir receita para esse tipo de medicamento.
O problema não se limita ao consumidor final. Dados citados por especialistas em controle de infecção hospitalar apontam que um em cada cinco hospitais brasileiros falha em ajustar corretamente a dose de antibióticos para o perfil do paciente, e que 87,7% das unidades de saúde chegam a prescrever o medicamento sem exames laboratoriais detalhados que confirmem qual bactéria está causando a infecção e se ela já é resistente a determinado princípio ativo.
Para quem quer contribuir para reverter esse quadro, a orientação de infectologistas é direta: nunca tomar antibiótico por conta própria, mesmo que a receita seja de um tratamento anterior parecido; sempre completar o tempo de tratamento prescrito, mesmo que os sintomas melhorem antes do previsto; e não guardar sobras de antibiótico em casa “para o caso de precisar depois”. Cada uso desnecessário é, na prática, uma nova chance para que uma bactéria resistente prospere — e o relatório da OMS deixa claro que essa conta, somada em escala global, já está custando mais de um milhão de vidas por ano.
A OMS também recomenda que hospitais e postos de saúde reforcem o uso de exames laboratoriais antes de prescrever antibióticos de amplo espectro, justamente para reduzir a exposição desnecessária de bactérias a medicamentos que talvez nem sejam necessários naquele caso específico. Para o paciente comum, o recado é simples: antibiótico não é remédio para qualquer mal-estar, gripe ou dor de garganta viral, e usá-lo sem necessidade não acelera a recuperação — apenas contribui para um problema que, segundo a própria OMS, já ameaça se tornar maior do que o câncer como causa de morte no mundo em poucas décadas.