OMS mantém risco muito alto para Ebola na RD Congo

OMS eleva risco do surto de Ebola na Republica Democratica do Congo
Foto: ONU News

A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou, ainda em maio de 2026, a avaliação de risco do surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) para “muito alto” em nível nacional, classificando o risco como “alto” em nível regional e mantendo a avaliação de risco global em patamar baixo. O anúncio foi feito pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em meio à expansão acelerada do surto no leste do país. Passados quase três meses, dados mais recentes confirmam que a situação na RDC continua grave, mesmo com uma boa notícia paralela: o fim do surto derivado em Uganda.

A cepa sem vacina aprovada

O que torna este surto particularmente preocupante para autoridades sanitárias é a cepa envolvida: ao contrário de boa parte dos surtos anteriores de Ebola, causados pelo vírus Zaire — para o qual já existem vacinas aprovadas e amplamente utilizadas em campanhas de contenção —, o surto atual é provocado pelo vírus Bundibugyo, para o qual não existem vacinas ou terapias específicas aprovadas até o momento. Isso limita as ferramentas de resposta disponíveis basicamente ao isolamento de casos, rastreamento de contatos, tratamento de suporte e medidas rígidas de biossegurança em unidades de saúde, tornando a velocidade da resposta local ainda mais decisiva para conter a disseminação.

Números atualizados: mais de 3,7 mil casos e taxa de letalidade de 44%

Segundo boletim mais recente do Ministério da Comunicação da RD Congo, com dados consolidados até o início de agosto, o país já soma 3.748 casos confirmados de Ebola e 1.657 mortes desde a declaração do surto, em 15 de maio de 2026. A taxa de letalidade está em 44,2%, um número expressivamente alto mesmo para os padrões históricos da doença, que costuma variar entre 25% e 90% dependendo da cepa e da qualidade da resposta assistencial. Atualmente, 690 pacientes seguem em isolamento ou hospitalização, enquanto 708 pessoas já se recuperaram. A taxa de rastreamento de contatos está em 80,1%, e mais de mil alertas foram investigados nas últimas medições, com centenas de amostras analisadas em laboratório.

Cinco províncias do leste e centro-norte do país foram atingidas pelo surto: Ituri, epicentro da crise, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uele e Tshopo. A dispersão geográfica por diferentes províncias é um dos fatores que levou a OMS a manter a classificação de risco nacional em “muito alto”, já que amplia a dificuldade logística de conter simultaneamente vários focos de transmissão em uma região com infraestrutura de saúde limitada.

Uganda: do alerta transfronteiriço ao fim do surto local

Em maio e junho, o avanço do vírus para além da fronteira da RDC gerou um foco de preocupação adicional: Uganda registrou casos importados, ligados a pacientes que haviam atravessado a fronteira em busca de atendimento médico. Ao todo, o país chegou a contabilizar 20 casos durante esse episódio, sendo 15 classificados como importados, com 2 óbitos registrados.

A boa notícia veio no fim de julho: o governo de Uganda declarou oficialmente o país livre de Ebola em 28 de julho de 2026, após 42 dias consecutivos sem novos casos locais — o período de vigilância padrão adotado pela OMS para confirmar o encerramento de um surto, equivalente a duas vezes o intervalo máximo de incubação da doença. Ou seja: diferentemente do que uma leitura apressada do noticiário de meses atrás poderia sugerir, Uganda não está mais registrando casos ativos ligados a este surto. A resposta rápida do país africano, que já tem experiência acumulada com surtos anteriores de Ebola, é citada por organismos internacionais como um exemplo de contenção bem-sucedida de um foco transfronteiriço.

Isso não significa, porém, que o risco de disseminação regional tenha desaparecido: enquanto o surto seguir ativo e crescendo dentro da RD Congo, o risco de novos episódios de exportação de casos para países vizinhos continua sendo monitorado de perto pela OMS e por agências como o Centro Africano de Prevenção e Controle de Doenças (Africa CDC).

Por que o risco global segue “baixo”

Apesar da gravidade da situação na RDC, a OMS mantém a avaliação de risco global como baixa. Isso reflete, principalmente, o fato de o Ebola não se transmitir pelo ar — o contágio ocorre por contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, sintomáticas ou já falecidas, o que limita naturalmente a velocidade de disseminação em comparação com doenças respiratórias. Também pesa a experiência acumulada de organismos internacionais em conter surtos anteriores de Ebola na África Central, com protocolos já testados de isolamento, rastreamento e resposta rápida em pontos de fronteira e aeroportos.

Ainda assim, a classificação de risco “muito alto” em nível nacional na RDC é um sinal de alerta sério: significa que, sem reforço da resposta local — incluindo mais investimento em vigilância epidemiológica, capacitação de profissionais de saúde e infraestrutura de isolamento —, o número de casos e mortes tende a continuar crescendo nas próximas semanas.

Recomendações para viajantes e para o público em geral

Para o público brasileiro, o risco direto do surto é considerado mínimo, já que não há transmissão comunitária fora da região central da África nem histórico de propagação para as Américas neste episódio. Ainda assim, autoridades de saúde recomendam que qualquer pessoa com viagem prevista para a República Democrática do Congo, Uganda ou países vizinhos consulte informações atualizadas de órgãos oficiais como a OMS e o Ministério da Saúde antes do embarque, e evite contato com animais silvestres e carne de caça (bushmeat) na região, uma das rotas conhecidas de transmissão do vírus de animais para humanos. Profissionais de saúde que atuam em missões humanitárias na área também devem seguir rigorosamente os protocolos de biossegurança recomendados pelas agências internacionais.