
O Relatório de Estatísticas Mundiais de Saúde 2026, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), traz um retrato ambíguo do estado da saúde global: há avanços inegáveis em algumas frentes, mas o ritmo geral de progresso é insuficiente para que o mundo cumpra as metas estabelecidas para 2030. Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o avanço segue “desigual e lento”, com o peso maior recaindo sobre países de baixa e média renda e comunidades mais vulneráveis, especialmente em contextos de fragilidade institucional e conflito.
Entre os dados positivos, o relatório aponta queda de 40% nas infecções por HIV desde 2010 e redução de 12% na incidência de tuberculose desde 2015 — dois indicadores que mostram o efeito de décadas de investimento em prevenção, diagnóstico e tratamento dessas doenças em escala global. A mortalidade infantil abaixo de 5 anos também caiu 51% desde o ano 2000, e a mortalidade materna recuou 40% no mesmo período.
Do lado preocupante, a incidência global de malária aumentou 8,5% desde 2015, afastando o mundo da meta de eliminação da doença prevista para 2030. É um retrocesso que contraria justamente a tendência de queda observada em outras doenças infecciosas, e que a OMS atribui a fatores como mudanças climáticas, resistência a inseticidas e cortes de financiamento em programas de controle de vetores em diferentes regiões do mundo.
O relatório também traz um dado que reconfigura a compreensão sobre o impacto real da pandemia de Covid-19: estima-se que 22,1 milhões de mortes estejam associadas à doença entre 2020 e 2023 — quase três vezes mais do que os números oficiais registrados no período. O impacto foi tão significativo que praticamente apagou quase uma década de ganhos em expectativa de vida acumulados globalmente antes da pandemia.
Outros indicadores reforçam a dimensão da desigualdade de gênero e de acesso à saúde no mundo: 24,7% das mulheres e meninas acima de 15 anos relataram ter sofrido violência por parceiro íntimo em 2023, e cerca de um quarto da população mundial ainda enfrenta dificuldades financeiras causadas por gastos diretos com saúde — um problema que atinge principalmente famílias de baixa renda sem cobertura de sistemas públicos ou seguros de saúde.
A Região Africana da OMS, apesar dos desafios estruturais historicamente enfrentados pelo continente, registrou reduções mais rápidas do que a média mundial em dois indicadores centrais: queda de 70% no HIV e de 28% na tuberculose, mostrando que investimento direcionado e políticas públicas consistentes conseguem gerar resultados mesmo em contextos de recursos limitados.
Para a OMS, o recado do relatório é claro: sem uma aceleração significativa nos investimentos em saúde pública global, nenhuma das metas de saúde dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável será alcançada até 2030 — um alerta que deve pautar discussões em fóruns internacionais de saúde nos próximos meses, à medida que o prazo para as metas se aproxima.